domingo, 10 de maio de 2009

Eu respondi...

por Isadora Vidal
Seu texto dá vontade de escrever... Não fui a única dizer isso, não é? Dá vontade de escrever porque queremos participar... Queremos um pouco disso também! Eu, particularmente, sinto até um pouquinho de inveja... Não que eu tenha vontade de fazer algo parecido. Não, não é isso... É vontade de também entrar nesse novo mundo de descobertas de... Descobertas de... De... Do que mesmo? Do que exatamente?Quando eu falei para que você assumisse logo de uma vez por todas que sua performance era muito mais para você do que para o público, que o mais importante era o que você estava para experimentar e descobrir ao invés do que você poderia provocar nas pessoas, em momento algum eu achei que isso seria ruim. Ou que devesse ser visto como algo ruim. E daí que já fizeram isso nos anos 60, 70, 80, 90, ontem? Já fizeram? Eles... E por que fizeram? O que você fez? Foi igual? Por que você fez? Você... Por mim a diferença já se mostra aí! E é sim uma diferença pra lá de significante! Eles e você? É bem diferente, não é? É diferente fazer alguma coisa do que lê-la em um livro?Mas enfim... Além disso, também não acho errado repetir qualquer passado, muito menos enveredar-se numa experimentação muito mais para você do que para o público por que eu entendo - Um pouco pelo menos – de algo que acontece entre nós.Nós vivemos a ler muitos livros e a ver filmes e a assistir espetáculos e a estudar a arte, principalmente o teatro. Estamos em um momento das nossas vidas em que só fazemos isso. Arriscamos-nos uma vez ou outra a parar de estudar e tentar fazer algo... A fazer arte... A fazer teatro. E nos afogamos em dúvidas, anseios e indagações. Eu sou assim... Você é assim... E estamos cercados por pessoas assim!O que é a nossa arte? O que o nosso teatro? Como vamos fazer alguma coisa nova? Nós temos que fazer alguma coisa nova? O que vamos dizer? Precisamos dizer alguma coisa? Para quem? Por quê? Mas O QUE vamos dizer no final das contas?Conseguimos aprender a teoria. Lemos, estudamos... Conseguimos aprender a técnica. Freqüentamos aulas, treinamos e treinamos... Mas e o conteúdo? E a sensibilidade necessária para criar esse conteúdo? (Parece mentira, mas a inteligência necessária não é o maior objetivo... Ela é mais facilmente conquistável... Algumas vezes até sobra! Mas e a sensibilidade?) No início acreditamos que os livros nos ajudariam... Gritamos por Lispector, Calvino, Pessoa... Mergulhamos em poesia, filosofia, romances... E é claro que isso ajudou... Quem somos nós para virar para Machado de Assis e dizer “Hei! Você não está me ajudando a entender em nada a natureza humana!”? Descobrimos que isso podia nos ajudar... E ainda estamos nesse caminho...Mas sentimos que ainda falta algo! E onde podemos buscar isso? Como vamos aprender alguma coisa que não podemos encontrar no computador da biblioteca com um número de chamada indicando? Outro dia mesmo eu conversava com H sobre algumas pessoas que perderam entes queridos de forma abrupta e “aprenderam” uma sensibilidade de vida muito bonita... Muito aguçada... Você já ouviu aquele clichê “artistas precisam sofrer” ou qualquer coisa parecida? Será que isso é verdade? Eu me recuso a acreditar, claro, mas talvez esse seja mesmo – o sofrimento – um atalho para essa sensibilidade e conteúdo que tanto procuramos... Não pretendo descobrir empiricamente!Mas voltamos para o mesmo lugar não é? Onde encontraremos um conteúdo? O que vamos falar? Como fazer uma performance “profunda e obscura” como F nos pediu? (Sim, ele pediu isso a mim e H...) Nunca sofremos demais nas nossas breves vidas de 20 e poucos anos... Não conhecemos grandes privações ou terríveis abusos... Sempre tivemos comida, abrigo, educação e diversão... Nossos pais nunca nos foram cruéis, abusivos, ausentes... Pelo contrário! Eles inclusive apóiam nossas jornadas na arte do teatro... Preocupamos-nos sim com o mundo e com a natureza... Reciclamos nosso lixo... Apagamos a luz na hora do planeta e não comemos carne também! Temos uma certa consciência política... Sabemos o que acontece no mundo, achamos um horror a guerra no Oriente Médio... Sabemos quem são os políticos... Sabemos que a violência aumenta... Que o mundo só se desintegra em sim próprio... Sabemos tudo isso... Mas normalmente não fazemos muita coisa...Somos de um universozinho onde ninguém mais tem que se preocupar com ditaduras militares... Mortes por cólera, lepra ou qualquer outra doença “fora de moda”... Mortes por fome e pobreza... Opressão da sociedade ou da igreja ou do governo contra qualquer pessoa que não se enquadre nos padrões definidos (Até vemos isso de perto, mas ainda assim, somos brancos, de classe média, heterossexuais e saudáveis... No máximo somos atores começando a descobrir o que é ser rebaixado por esse motivo... Não sabemos realmente o que é ser descriminado...). Somos egoístas... Hedonistas... Egocêntricos tantas vezes... Neste nosso mundinho os grandes problemas são tratados com prozac, valium ou lexotan...Sobre o que vamos falar então?Saímos em desvantagem? Eu não posso ser artista e performer por que meu pai não me prendia em um congelador e a minha mão sempre foi legal comigo? Será realmente?Eu me recuso a aceitar isso!E é nesta recusa que a sua performance me parece tão bonita! E é nesta recusa em que eu sinto uma certa inveja do que você tem feito para você mesmo! Inevitavelmente somos artistas, e seria irresponsável da nossa parte, quase que vergonhoso, não nos preocuparmos tanto quanto nos preocupamos com o nosso ofício... Temos o “por que”... Temos o “como”... Temos o “para quem”... E finalmente o “O que”... E qualquer atitude, quer considerem arte ou não, que contribua para que afinemos e exploremos nossos “o que”, na minha singela opinião, deve ser valorizada.“O que” nós temos para falar, considerando nosso histórico relativamente nada dramático – a.k.a. “nada artístico” – deve ser construído. Ao poucos seria a opção mais prudente, mas empreitadas mais drásticas como a sua, em uma mesa cercada na praça do CECA, também servem... Os livros, dos quais eu já falei antes, ajudam muito. Devemos sim agarrarmo-nos a eles com todas nossas forças. A experiência das outras pessoas, dos outros artistas, também deve ser considerada e pensada por muitas vezes sobre o travesseiro, o prato do almoço e o encosto do ônibus... Mas e a nossa experiência? Quando a construiremos?Eu penso muito o tempo todo sobre muitas coisas... Passei boa parte da minha vida pensando muito mais do que vivendo... Pensando na minha família ao invés de conviver com ela... Pensando nos meus amigos ao invés de tê-los... Pensando nos meus namorados ao invés de conhecê-los... Pensando nas minhas aventuras ao invés de vivê-las. Aos poucos isso foi se transformando em “estudando muito mais do que vivendo”. Prefiro infinitamente mais estudar alguma coisa ao invés de fazê-la. Estudar teatro ao invés de fazê-lo. Estudar a arte ao invés de experimentá-la. Estudar a vida ao invés de vivê-la.Em vista disso tenho me obrigado a mudar... Ao poucos, claro... Com parcimônia! Sou medrosa... Mas quero mudar... E na construção da minha experiência tenho me forçado a observar... Observar o mundo, observar as pessoas, observar o meu redor. Qualquer um diria que isso ainda é pouco. Que isso não é arte, obviamente. E que eu ainda não vivo nada desse jeito! Mas não tenho tanta pressa assim. Sei que para sair da minha cabeça e aceitar a visão de outras pessoas através dos livros já dei um enorme passo. Agora estou abandonando a visão de outras pessoas e construindo a minha própria antes de me jogar no mundo das experiências. Este é outro grande passo. E para mim, isso é Arte! Pode não ser a arte final, o resultado... Mas é o caminho. E é através dele que terei um dia (não tenho pressa para que este chegue) um “O que” significativo para colocar em meu trabalho.É sobre isso que escrevo aqui... Sobre a construção de um conteúdo válido e rico e pessoal que será a base da nossa arte! Sobre o objetivo da sua performance, a medição do cotidiano, bom... Já discutimos bastante sobre isso, não? Em alguns momentos acho que isso funcionou... Em outros nem tanto... Acho ainda meio arriscado se expor tanto assim... Mas isso é porque eu me preocupo demais mesmo... Confesso que a história da pasta veio a calhar para que eu não me sentisse uma boba aparecendo na UEL super cedo só pra ver como você estava... Eu me preocupo demais... É normal... Algumas pessoas se aceitaram sua proposta e se questionaram sobre suas rotinas... Algumas saíram de seus cotidianos por sua causa... Outras não... Algumas nem te viram... Você escreveu um relato lindo e tocante... E no final das contas foi uma performance interessante. Não mais do que isso.Mas o mais importante de tudo é perceber o quanto isso foi importante para você... E o quanto isso agrega, em valor e quantidade, bagagem para o seu repertório de experiências. Ver a construção de conteúdo que você tem buscado para a sua vida... Ah! Isso é Arte! E é isso que vai fazer de você um artista! A capacidade de buscar... A capacidade de se inquietar... Arte não é um resultado fixo e concreto. O Teatro não é isso... É uma eterna busca... E isto é muito mais importante do que uma nota na universidade, um dado no currículo, um sucesso no tcc ou mais um título acadêmico. Estamos buscando nos conhecer e conhecer melhor nosso assunto: o mundo! E desta busca insistente sairão aos poucos alguns resultados prévios (uma apresentação aqui ou lá) que farão a diferença na vida das outras pessoas. Este é o teatro que nós devemos buscar!Carinhosamente,“I”

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