domingo, 10 de maio de 2009

Entre a relevância e a incoerência,Ou metendo a colher onde não fui chamado,Ou a crítica como respeito...

por Aguinaldo de Souza

Sobre o exercício proposto e experimentado pelo aluno João Armando Fabbro, e seu posterior relato, acredito que a proposta ficou entre os limites do que seria uma performance e um laboratório pessoal, visando experimentar uma leitura diferenciada do seu próprio cotidiano.
Neste sentido, acho a iniciativa relevante, pelo desafio proposto, pela atitude investigativa, pela exposição (que acrescenta ao repertório pessoal) e principalmente, pelo esforço em legitimar uma idéia e uma ação com independência, tão raro na universidade como um todo. Essa atitude eu realmente louvo, tendo em vista que a maioria dos processos são burocratizados, com anuência, perdão, apoio e cuidado de autoridades paternalistas. Nossos artistas ainda precisam de posturas artísticas.
Por outro lado, o exercício em si é incoerente, e sua reflexão confirma isso.
As questões artísticas e estéticas são prontamente esquecidas quando o aluno se coloca num espaço absolutamente confortável socialmente , com a certeza de uma heroicização de sua ação por parte do grupo social (colegas de curso). O silêncio e a exposição poderiam se transformar em material de estudo se o aluno não tivesse assumido uma teatralidade imediata e mais uma vez confortável: vitimizado pela situação que ele mesmo criou.
Como o próprio relato assinala, a partir daí, uma série de abordagens meramente afetivas se inicia, e ele se infantiliza cada vez mais, numa interpretação ou numa regressão psicológica, para corresponder aos afetos manifestados.
Neste ponto, o exercício fica psicologizado e realmente nada artístico. Enfim, serve como uma imersão frágil numa personalidade não teorizada e que, após se lançar num exercício, não tem absoluta consciência dele.
Para lembrar: mães passam mais de 24 horas em filas de inps, carregando seus filhos com febre. Adolescentes ficam 2 dias em filas sob sol escaldante pra comprar convites de show. Se a reflexão não se voltar sobre a gratuidade da ação, sobre os aspectos de questionamento desta mesma vida burguesa que exige o movimento e execra a lentidão, se não houver o desenvolvimento de um pensamento sobre a posição do artista perante esta sociedade, mesmo que seja este (in-)feliz grupo de colegas, não existe a situação em si. Talvez o melhor momento seja do relato da discussão com o professor, quando a opção pelo silêncio impede o aluno de se esclarecer e ele vivencia um risco real... daí poder-se-ia tirar proveio, do resto, não vejo como.
É claro que esta apenas é uma leitura – algo atenta – do processo. E é claro que só existe a partir da disposição ao jogo e ao erro, fundamentais neste momento do estudo, mas seria bem triste se houvesse uma comemoração sobre este fato e este relato, afinal não era esporte, nem uma peça comercial, não pode haver aplauso se não há espetáculo. Cuidado com o elogio ingênuo e com a sensação de “missão cumprida”. Toda vez que isso ocorre, retarda a investigação, a curiosidade, a saudável angústia pelo saber. Falei.

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